A PEQUENINA AMÉRICA E SUA AVÓ $IFRADA DE ESCRÚPULOS


A PEQUENINA AMÉRICA E SUA AVÓ $IFRADA DE ESCRÚPULOS




Autores: Marina Vianna, Marcos Coletta e Éder Rodrigues | Diretora: Sara Rojo | Elenco: Marina Arthuzzi, Marina Viana, Marcos Coletta, Marcos Alexandre, Fernando Oliveira e Henrique Limadre | Produtor: Mayombe | Cenógrafo: Gil Esper e Fernando Flávio | Figurinistas: Mariana Blanco, Paolo Mandatti e Mayombe | Iluminadora: Marina Arthuzzi | Trilha Original: Dibigode Instrumental | Trilha Adaptada: Mayombe |


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Quando vi a foto de divulgação da atriz colocada sob a imagem do mapa das Américas me lembrei de imediato daquela historinha que é muito contada em livros de auto-ajuda e em jornais populares, do pai que para se livrar da criança que o atormentava, pega uma folha de revista onde havia um mapa-múndi e pica a folha em vários pedaços pedindo para a pequenina criança que montasse o quebra-cabeça. Em minutos a criança retornou com tudo pronto e surpreso com tal habilidade precoce, questionou à infante, que respondeu de súbito – vi a foto de um homem no verso da folha, então construindo o homem eu construí o mundo. Embora seja uma história quase clichê, quem é que diz que os clichês não podem ser bons, quando utilizados no momento certo?


Foi a minha primeira vez no Esquyna (Espaço Coletivo Teatral). Não pude deixar de imaginar antecipadamente que ficava numa esquina e realmente é assim. Fui tomado ainda na fila com pensamentos sobre os espaços que poderíamos chamar de “alternativos, contemporâneos”, para eventos culturais e sempre me parece óbvio que certas produções teatrais vão ocupar exatamente estes espaços e não outros, para sua apresentação. Entramos num galpão amplo e sentamos em cadeira de plástico bem pertinho de onde seria o espetáculo e mesmo com toda esta característica intimista, não me senti nada intimidado. Pelo contrário, me senti em casa. Percebi o Glamour que há no espaço alternativo e as vezes o lugar em si já cria um clima, dá um charme especial ao espetáculo e na minha observação, ainda como neófito, admito, achei totalmente apropriada a junção da peça com o espaço.


Nem começara a peça e eu já estava inundado de idéias, já que grande parte da minha infância foi passada na rua mesmo. Os recursos tecnológicos eram parcos e o divertido mesmo era encontrar os amigos fora de casa. Entrar em casa só embaixo de chineladas, na maioria das vezes escutando – sai da esquina menino! Sempre foi na esquina que tudo acontecia no meu bairro, o encontro, namoros, brigas as tocaias. Te pego na esquina. Há.. sempre rolava uma briguinha. Era também o lugar do perigo, do ladrão, da venda de drogas, das tramóias. Fazendo um tanto de analogias com as palavras, sempre me divirto com meu mundinho. Bem, o espetáculo começou: vamos lá!


Pra minha alegria, América é uma criança. Sim, eles personificaram a América como uma criança. Não uma criança qualquer. Uma criança desejada, cobiçada. Ela era a chance de um futuro melhor, não por ser América, mas porque poderia ser explorada interminavelmente. Com muita delicadeza e um texto maravilhoso e inteligente, a historia da América - terra e carne, é contada. Gostei muito da personificação, porque o mundo é formado de homens, como na historia do quebra-cabeça e todo esse processo de pedofilia ou incesto intercontinental nunca deixaram de ser,  na verdade, o abuso, estupro e extorsão das pessoas que são Américas. Sim, meus queridos nós somos essa criança. Somos América.


Me senti tão infantil quando escrevi isso. Porque às vezes me vejo acenando para o nada, como América fez, esperando meu futuro chegar, enquanto os meus convidados mais próximos, minha família e amigos tem fome, sede e ambições frustradas e me culpam por isso.


A América traz uma historia de culpa. Mas como culpa, se ela é a explorada, ela é a abusada? Meus queridos, de onde vem tanta ingenuidade? Claro que tem um ganho encoberto por tudo isso. A exploração não era só das riquezas, era das almas. Mas ao ser usada, ela sabia, ela tinha o seu lugar garantido. Vou ser a esposa, a filha, a neta, a puta dessas pessoas. E elas vão me dar carona e me levar para um lugar melhor. Sei é duro, mas não penso que personificando as relações de poder do mundo façamos isso de forma consciente. Também não quero diminuir a culpa dos exploradores. É assim que acontece, quando existe uma construção cultural, psicológica, traumática, hierárquica e absolutamente fictícia, que faz América, mesmo com todo seu sofrimento procurar aquela que a criou, aquela que é maior e melhor que ela própria, nas minhas palavras, sua pequenina Vó.  Me deparei agora com uma lembrança. América era órfã e a Vó era apenas alguém que se apoderou deste lugar que a própria América nomeou.


O tênis da América é dourado e imaginei que ela andava pisando na própria riqueza e por isso não percebia o valor que tinha. Eu ri nervosamente quando ela quis dar os tênis para o estranho que lhe cobrava – leve isso, é a única coisa que tenho, tanto faz. Como assim, a única coisa que tenho? Indignei-me e não foi só essa vez. Mas respirei baixo porque ali pertinho dos atores eles poderiam ouvir o meu arfar indignado.  América, ao meu ver, era uma criança que sentia isso:  “tanto faz”, só quero estar no colo da minha Vó, então vão me levando pra todos os lugares fazendo o que pretendem.


Acredito que a América está na esquina do mundo. Fora da casa grande, do conforto e da segurança, fora das grades e do colo da mãe. Esta naquela zona de perigo e oportunidades. Aquele lugar onde se pode atravessar a rua e seguir em frente, mas para isso precisa tomar as rédeas de si própria e sair das asas dos maiores.


Num relance final da peça, América dá muitas dicas de amadurecimento, e espantado, vejo-a mulher, cantando sozinha à luz do holofote, numa língua estrangeira.


Fabio Teixeira


Fabiozen.blogspot.com



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