Alfredo virou a mão - algumas observações.
Algumas observações após assistir o espetáculo “Alfredo
virou a mão”
Autor: João Bethencourt | Diretor: Ilvio Amaral | Elenco:
Marcelo Campos, Marísia do Prado, Fernando Verissímo, Fred Mozart, Marcelo
Duque, Abdon Braga, Mayara Dornas | Produtores: Marisia do Prado e Rômulo Duque
| Cenógrafo: Rômulo Duque | Figurinista: Marisia do Prado | Iluminador: Cláudio
Castanheira | Trilha Original: Guilherme Praxedes |
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“Ser-si-mesmo-com-o-outro-no-mundo”.
Começo este rabisco com essas
palavras, que podem soar estranhas e se fundamentam no cerne do pensamento que
em mim foi evocado, após assistir o espetáculo Alfredo virou a mão.
Terminada a peça, ainda com o
espírito leve pelas boas risadas que dei, deparei-me com a fala de uma pessoa
enquanto estava sentado tranqüilamente num bar: “somente a pouco tempo eu saí
do armário, sempre soube o que eu era, mas somente agora assumi totalmente o
que sou”.
Temos no centro do pensamento
existencialista, com seus representantes mais que ilustres como Sartre,
Heidegger e Kierkegaard, um ponto em comum em suas teorias: construção do
sentido da existência sendo constituída com o “ser-si-mesmo, “ser-no-mundo”,
“ser-com-o-outro”.
Ao assistir o inicio do
espetáculo, as situações cômicas criadas com estereótipos, que ao meu ver foram
propositalmente exagerados, ressaltaram primeiramente idéias de cunho amplo e
social, como o preconceito com a orientação sexual e a importância dos papéis
sociais, tendo como exemplo o papel de homem, pai, diretor e chefe que é
ocupado por Alfredo. Ao assumir falsamente uma papel novo de homosexual todos
os outros papéis assumidos anteriormente são a partir de então questionados.
Quem é esse homem, pai, diretor e chefe que agora é Gay? Mas então a idéia que
tratarei surge mediante e durante as excelentes atuações no palco e que fizeram
uma ponte ao escutar a fala citada anteriormente “eu sai do armário”.
Sair do armário, já diz de algo
que está embutido, algo que está preso ou algo que deve ou tem que ser escondido.
E me ocorre que ser gay não é mais um tópico tão difícil no mundo atual, onde
as diversas formas de orientação sexual se tornaram praxe. Ser gay não é mais
uma coisa escandalosa ou doentia ou adversa, pelo contrário, ocorre até mesmo
um certo preconceito com a heterogeneidade, onde ser hétero vem se tornando
banal e chato. Isso é até explicitado no próprio texto da peça quando o diretor
da empresa Cometa só aceita fazer a negociação porque um dos funcionários da
empresa de Alfredo é gay também.
Eu particularmente sonho com um
mundo onde esses rótulos não existam. Um mundo onde os relacionamentos se dão
entre “pessoas que se amam” e nada mais.
Ser-si-mesmo não é uma
construção fácil. Vivemos no mundo com o outro e muitas vezes tornamos nossa
experiência um ser-para-o-outro. O tema da peça passou a ser a aceitação que
tenho pelo que eu sou. Através das situações hilariantes, ocorre um fenômeno
que admirei na peça. Ao se deparar com a alteridade, com a nova expressão e a
sinceridade com que Alfredo assume seu novo papel, assume a si-mesmo frente a
todos, mesmo que falsamente, abre-se a possibilidade de escolha para quem não
via alternativa a não ser manter-se recluso. Uma impossibilidade de
ser-si-mesmo movida pela coerção e medo do preconceito.
É um fenômeno visível que, ao
ser aceito pelo outro, você pode ser você mesmo, você pode fazer escolhas mais
coerentes com sua própria existência. È impreterível ressaltar que não é uma
questão somente individual e nem uma questão puramente social. Parte dos sentidos
que são construídos pelos valores próprios, mas estes valores são colocados aos
olhos do outro que nos vê, e isso promove transformações em nossas crenças e
atitudes.
O simples fato de estar em
situação favorecedora, onde o julgamento sobre sua orientação sexual deixou de
existir, permitiu aos personagens de forma muita bem construída no texto,
fazerem escolhas muito mais verdadeiras.
Talvez ai esteja o meu ponto de
dúvida ou de reflexão. Nunca a frase “sair do armário” tinha feito tanto
sentido. É sair do oculto e pagar o
preço que a meu ver é um preço que vale a pena, contanto que o que se ganha é
uma vida mais verdadeira, tornar-se então um ser que pode
ser-si-mesmo-com-o-outro-no-mundo.
E para quem não foi a este
espetáculo, posso fazer uma pergunta que merece ser esclarecida em cena: “Você vai assistir o fantasma da ópera
querida?”
Fabio Teixeira
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