Aqueles Dois

Aqueles Dois


Autor: Caio Fernado Abreu | Adaptação, Direção, Cenografia, Figurino e Trilha Adaptada: Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati | Elenco: Guilherme Théo, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Rômulo Braga | Ator Stand-by: Fábio Dias | Produtor: Companhia de Teatro Luna Lunera | Iluminadores: Felipe Cosse e Juliano Coelho | Produção Executiva: Cintia Carvalho | Coordenação de Produção: POP Produções Artísticas e Entretenimento | Blog: www.cialunalunera.blogspot.com |


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Eu-Isso, Eu-Tu. Relações existenciais no conto de Caio Fernando Abreu.


Dasein (Ser-aí) é uma condição existencial que me lembra um estado de solidão e desamparo. Um ser-aí, jogado no mundo vazio de sentidos que ainda vão ser construídos enquanto toma-se contato com tudo aquilo que não é o Ser em si. Já traz a premissa que o constituídor de sentidos é o contato com a alteridade. Evidencia que só existe algum tipo de relação a partir do encontro,  na relação entre o eu e o não eu, ou entre duas pessoas.


O encontro com alguém afeta a existência expondo o limite que constitui o que sou, afastando ou aproximando o outro da minha experiência. Posso manter o outro ali como um objeto, que pode ser utilizado, visto, manipulado, assim como o outro o fará também comigo, criando uma relação em que o outro passa a ter um sentido prático, factual, contextual. Faz parte de uma forma relacional utilitarista, o que seria para o filósofo Martin Buber uma relação Eu-Isso. O outro passa a ser “isso”, um objeto, uma coisa que está porventura participando da minha experiência.


Raul e Saul se encontraram naquilo que Caio chamou de deserto. Essa imagem do Dasein nunca se tornara tão verdadeira e visível para mim como naquela cena do espetáculo. No deserto cheio de pessoas que não se olham porque não tem íris nem pupila, eles iniciam um outro tipo de relação.


O outro passa a ser um encontro, um achado talvez. O limite que os separa torna-se mais tênue permite que suas existências se entrelaçarem. Quando um ser permite que o outro seja ele mesmo e este primeiro sente que pode ser assim, então algo de transformador ocorre nesta conjunção de existências. Não é preciso esconder-se, ter vergonha ou medo. Permitem despir-se e ficarem nus, apenas ali, um perto do outro. Não há cobrança ou exigência que o outro haja de forma diferente.


Nunca consegui chegar a definições acerca do amor e também não pretendo. Mas nesse momento enquanto escrevo pensei no amor como essa forma de estar com alguém, onde tudo que faz sentido na minha experiência, passa de alguma forma pela experiência que o outro me possibilita. Eu entrego a você o pássaro que ensinei a cantar e você me entrega o quadro que reflete o seu lugar. Eu te dou não só, algo que é importante para mim, mas lhe entrego o que sou para que você cuide.


Percebo que Raul e Saul construíram uma relação que posso chamar de Eu-Tu. Eu e você e não Eu e Isso. O outro sempre será outro, mas de uma forma que o outro tenha o valor de alguém.


Estão juntos porque faz sentido estarem ali, não só apenas por este motivo, mas, exatamente por este motivo.


A mesa de café poderia ser chamada de oásis naquele deserto, onde eles saem da aridez dos encontros vazios para aquecer seus corações naquele pequeno pedaço de verdade. Achei muito proveitoso utilizarem quatro atores, porque é como se cada um pudesse ser dois. Um Raul e Saul para o mundo e um Raul para um Saul.


Martin Buber, diz que o verdadeiro encontro entre duas pessoas se dá como na imagem que tentarei descrever. Ao entrarem numa relação Eu-Tu, é como se houvesse abismos colossais em ambos os lados e só restasse o caminho à frente, o único caminho possível, o encontro.


Aqueles dois é um espetáculo que faz sentido pra minha existência.






Fabio Teixeira


Fabiozen.blogspot.com


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