Flor do deserto

Num campo distante e árido, certa vez brotou uma flor amarela, que te tão bela, tão discrepante, sentia-se solitária. Tinha pétalas longas e ovaladas, num total de oito, com um friso central levemente verde e micro-capilares quase invisíveis ao olho bronco. Não tinha de altura nem mais que um palmo bem esticado e, no entanto, havia duas folhas em seu caule, folhinhas verdes e de textura aveludada. Nasceu no meio da pedra e da areia como se ali houvesse água, como se fosse úmido. Já nasceu desabrochada com pólen dourado respingando em seu miolo. Não conhecia ainda as abelhas, os beija-flores, não conhecia nada. Aquele solo árido era tudo que sabia. Certa noite, tomada de solidão sentiu-se feia e quis fechar-se em botão. Forçosamente tentou dobrar suas pétalas, mas o vento suave era suficiente para delicadamente reabri-la. O vento ria de seus esforços. Desalentada percebeu que a noite estava clara, de tão clara que estava a lua cheia. Nem percebera o barulho dos passos de quem se aproximava. De joelhos, aquele homem, aquele ser então incompreensível à uma flor, ficou ali parado tapando a luminosidade, tapando o vento. Foi a primeira vez que ela viu uma lágrima. Sentiu como se aquela lágrima fosse dela e querendo se juntar a ela tentou chorar. Quanto mais tentava, comprimia sua seiva, mais seu amarelo reluzia. Sem forças e sem lágrimas percebeu que tudo ao seu redor se calara, deixando até o vento mudo.  Não compreendia porque ele sorria. Não compreendia porque ele a machucava, arrancando-a da pedra dura e seca. Não compreendia porque ele corria. Ele corria, corria e corria em direção à lua. Quando ele parou a flor sentiu-se apertada por quatro mãos, quatro braços e dois corações. Longe da pedra, longe da areia em que nascera, com as raízes arrancadas desfalecia ouvindo aqueles tambores acelerados. No entanto descobriu o que era o amor. Viveu no campo árido e morria num abraço. A flor chorou de felicidade com lagrimas emprestadas que lhe caiam do alto. 

Fabio Teixeira

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