O rabo do rato!





O rabo do rato.
(Fabio Teixeira)

Shinzo mora num pequeno vilarejo, oculto dos grandes agrupamentos sociais, sons e ruídos da cidade. Para buscar suprimentos se aventura na balbúrdia dos centros com toda aquela parafernália barulhenta que o irrita profundamente. Só consegue apaziguar parcialmente seu espírito quando volta ao seu lar. 

A casa de Shinzo é simples, locada à margem da pequena vila, quase na encosta de um barranco. A umidade que ali penetra pelas paredes nos dias de chuva, deixa sempre um lastro de mofo pela parede do quarto, causando em seu filho um pouco de alergia. Os cômodos são pequenos, mas confortáveis, com  tatames adquiridos de segunda mão que se  assentavam sobre uma plataforma de vime, que sempre range quando pisada. As portas de correr eram feitas de bambu e folheadas com papel de seda resistente, com ideogramas de paz e harmonia pintados à mão.

É verdade que ali poderia haver a felicidade, salvas as condições que os homens se encontram atualmente na sociedade. Em geral todos estão desesperados por adquirir bens, terras, ouro, mulheres. Shinzo precisa só de paz. Mas algo o incomoda, atrapalhando o seu sono. A tempos ele percebe que tem algo que espreita sua casa, seu espaço, suas coisas. Shinzo da muito valor ao que tem, não no sentido mundano da posse, mas no sentido do valor que as coisas que conquistou tem em seu coração. Segue o caminho do samurai, o Bushido, que prega o desapego, mas crê não ser apego cuidar do que possui como algo importante.

Acordou de noite, esbravejou contra o vazio. - Quem está aí? Ralhou e discutiu com a esposa. Verificou se o filho dormia. Percebia pequenos movimentos, ocultos, quase imperceptíveis e sentia-se paranoico. Todas as vezes, ao levantar-se, o rangido do piso ou o mínimo arfar mair forte da respiração fazia a presença misteriosa desaparecer. Arriscou várias formas, andar pé-ante-pé, dar um salto com habilidades marciais, sacar rápido de sua espada contra o vento. Tudo em vão. Percebia aquela presença e sentia que aquilo estava invadindo, ocupando, utilizando de sua casa, bens e esposa.

Numa madrugada, ao sentir-se novamente invadido pelo inimigo oculto, aquietou sua mente, diminuiu a respiração, fechou apenas um dos olhos, deitou a orelha no travesseiro de palha e deixou o outro aberto para captar os mais finos sons do ambiente. Escutou ao longe o rio que passava, o vento nos bambus e enfim dentro de seu quarto, percebeu seu inimigo. 

Primeiro os sons eram ínfimos, mínimos. Mas diferente das outras vezes. Ficou parado. Os sons foram aumentando gradativamente, um "tictic" ali.. um "ricric" acolá. Sentindo o coração explodindo em fúria, pegou a lamparina que estava ao lado e direcionou para os sons, que desapareceram imediatamente, como sempre. Sentiu-se tolo. Mas não se levantou. Permaneceu estático, lamparina na mão, como uma estátua de bronze na praça. E lá estava ele. Um rato! Após alguns minutos de silêncio andou sorrateiro pelos cantos deixando sua calda branca iluminar-se pela luz da lamparina levantada.

Os ratos tem essa característica. Primeiramente são uns covardes, esgueirando-se no silêncio e aos poucos devorando o que desejam. Ao menor sinal de resistência, pressão ou perigo desaparecem sem deixar nenhum vestígio. 

Mas o que o rato não sabia é que Shinzo descobriu o seu segredo. Começou a pensar como um rato. Ao invés de brandir a espada no escuro, como um samurai que luta contra um inimigo invisível, optou por calar-se. Ao invés de gritar, brigar com a esposa, parecer um lunático, passou a observar. A arte de ocultar-se na sombra e fingir não ser incomodado pela intromissão roedora noturna, mostrou um outro lado do oponente. Ao sentir-se seguro, ele faz mais barulho. É essa sua fraqueza. Um rato é um rato sempre. Não vai deixar de tentar entrar na casa alheia. Sempre o fará de modo oculto, mas, ao sentir que não há perigo, baixa sua guarda.

É este momento que Shinzo espera. Calado e oculto nas sombras, aprendeu a observar os passos de seu oponente, que continua imaginando que permanecerá incólume. A cada dia faz mais barulho, aparece um pouco mais à luz, arrisca-se em aparecer nos momentos inoportunos, até mesmo em noite de festa de Shinzo com esposa, filhos e amigos, pensando estarem todos distraídos. Shinzo só observa.

Agora seu coração está mais pacífico e dorme melhor. As regras do jogo mudam aos poucos pois já viu o rabo e uma pata, talvez a cor de sua barriga. Shinzo sabe que um dia o rato mostrará sua fuça e é nesse momento que descarregará sobre ele todo seu ímpeto, esmagará seu corpo com tanta velocidade e vigor que sua alma não terá tempo de desprender-se da massa corpórea, sendo jogada no limbo dos traidores. Esse rato não saberá quem o atingiu, pois Shinzo quer matá-lo da mesma forma que vive um rato. De forma oculta, silenciosa e sem ninguém saber o que aconteceu.

Hoje é dia de ir à cidade e irritar-se com o barulho infernal que as pessoas produzem ao se aglutinarem nas vielas da capital.

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