A Cânfora


Contos sobre o sadismo e a dor

 

A Cânfora 

 

Ricardo tem esta mania de passar óleos canforados, daquele tipo de óleo que arde na pele e no nariz.  Acho que ele acostumou-se com isso, quero dizer, com a cânfora e não com a dor propriamente dita. Eu sei que ninguém se acostuma verdadeiramente com a dor e é por isso que continuamos a desejá-la.  É dia de treino e ele não quer ceder às inúmeras lesões que possui. O cérebro faz destas artimanhas com os atletas, emite uma mensagem enganosa de que tudo está bem, de que nada vai acontecer, um tipo de promessa de bem estar e segurança, mas quando você força um pouco mais uma articulação, pronto, desperdício de litros de óleo canforado. Meus olhos lacrimejam, mas ele não se importa comigo neste sentido, na verdade nem percebe meus olhos vermelhos. Família é assim mesmo, fazemos sempre as mesmas coisas todos os dias e eu já me acostumei a observá-lo. Começa a segunda parte do ritual com bolsas com gelo. Nove minutos gelando, nove minutos descansando, gastando uns trinta minutos do dia nesse processo crioterápico.  Ele me disse rindo que a dor do gelo é engraçada, primeiro aperta e comprime, depois arde e queima, deixando a pele vermelha e posteriormente quente.  Enquanto congela-se afirma orgulhoso que o segredo é colocar a mente em outro lugar, pensar em outras coisas.  Sempre achei que ele fizesse isso por causa do medo. Pensar em outras coisas, colocar a mente em outro lugar, engodo, engodo e mais engodo. Pra um atleta a pior das frustrações é sentir-se limitado, então, eles superam-se. Ricardo gosta muito dessa palavra, superação. Força seu corpo ao limite máximo e diz que a dor passa a ser motivadora, benéfica, prazerosa. Sempre volta do treino e me pega com esse papo sobre tudo que fez, onde subiu, quantos metros e em quanto tempo. Fico cansado só de pensar. Volta da cozinha com seus suplementos, dezenas de cápsulas, iogurte, granola, uma panacéia alimentar. Odeio essas comidas pastosas. Se eu pudesse escolher nunca comeria isso.  É fácil perceber em Ricardo qual o sentido de seu cansaço, rosto vermelho e corpo suado, ele já disse em outras palavras, é pra deixar a mente em outro lugar. Enquanto me perco neste pensamento ele se levanta e empurra minha cadeira até a janela. Eu gosto desta parte, fico vendo o jardineiro molhar as plantas. Ricardo se despede e sai. Queria me virar, mas não posso. Também queria sentir dor, mas não posso.

 

 Fabio Teixeira 



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